Mattering: O elo invisível entre o propósito e a realização
Em março de 2026, o palco do SXSW, em Austin, Jennifer B. Wallace, autora do best-seller Never Enough e colaboradora frequente do The Wall Street Journal e do The Washington Post, trouxe mais uma vez em seu keynote a reflexão sobre a saúde mental e a cultura do desempenho, apresentando as conclusões de sua pesquisa global sobre o conceito de mattering (importância), revelando como o sentimento de ser valorizado e de agregar valor ao mundo é, na verdade, o "elo perdido" para combater a solidão e o esgotamento em nossa sociedade hiperconectada.
Nós fazemos parte desta geração, uma geração de transição, mas, curiosamente, nunca estivemos tão nostálgicos. Alguns buscam conforto nos discos de vinil, nas câmeras analógicas e até em rituais que parecem ter ficado no passado. No entanto, Jennifer nos provoca com uma reflexão profunda: não sentimos falta dos objetos, mas de como nos sentíamos através deles. Em sua visão, "o que realmente temos nostalgia é de nos sentirmos importantes, a sensação de que você é valorizado e que está agregando valor às vidas ao seu redor". Esse conceito, que ela define como mattering, é a necessidade humana fundamental de saber que somos vistos e que nossa presença faz diferença no mundo.
Essa busca por valor muitas vezes é sufocada pelas "três grandes mentiras" da nossa sociedade:
ideia de que somos o que temos
ideia de o que fazemos
ideia de o que os outros pensam de nós
A Jennifer alerta que esse foco excessivo em resultados e imagem cria uma fachada de perfeccionismo que nos isola. Afinal, "é impossível conectar-se verdadeiramente com alguém que está se escondendo atrás de uma fachada perfeccionista". Para que um relacionamento pessoal ou profissional prospere, ele precisa de "textura", ou seja, da coragem de mostrar nossas partes imperfeitas e reais. É nesse espaço de vulnerabilidade que o verdadeiro pertencimento acontece.
No contexto corporativo, o mattering é o combustível invisível do engajamento. Muitos líderes confundem desinteresse com preguiça, sem perceber que "dói menos retirar o seu esforço do que continuar despejando energia em um lugar que faz você se sentir invisível". Quando um colaborador não sente que sua contribuição é notada, ele entra em um modo de autoproteção emocional. Por outro lado, empresas que cultivam uma cultura de valorização colhem frutos tangíveis em produtividade e inovação. Como bem resume a autora, "criar uma cultura de mattering não é apenas a coisa certa a fazer pelos seus funcionários; é também um bom negócio".
O impacto de se sentir (ou não) importante não fica restrito ao escritório, invade nossas casas e afetam nosso humor e saúde. A Jennifer argumenta que a resiliência não é algo que construímos sozinhos através de checklists de bem-estar. "Nossa resiliência não é encontrada no isolamento. Não podemos praticar o autocuidado até a resiliência; ela repousa em relacionamentos profundos e nutritivos". É a interdependência, o ato de depender e ser dependido por alguém, que nos fortalece para enfrentar as crises.
O oposto desse acolhimento é o anti-mattering, a experiência ativa de ser ignorado ou descartado. Jennifer ilustra isso com uma cena poderosa em um trem, onde um homem em surto de raiva foi acalmado pela simples presença de um condutor. Ela reflete que "aquele condutor entendeu que aquele homem, em seu jeito caótico, estava fazendo as perguntas humanas mais fundamentais: Você me vê? Você me ouve? Eu importo?". Esse reconhecimento básico tem o poder de transformar ambientes hostis em espaços de segurança psicológica.
Para quem lidera ou educa, o convite é para sermos pessoas de córner (minha tradução livre da metáfora da Jeniffer: no boxe, "cornerman" não é quem sobe no ringue para lutar, mas é a figura vital que permanece no canto, observando cada movimento), ou seja, aqueles que apoiam o outro nos momentos de exaustão e acreditam no seu potencial antes mesmo dele se manifestar.
Devemos praticar o que ela chama de "dar flores às pessoas enquanto elas estão vivas", usando nossas palavras para validar a essência de quem está ao nosso redor. Ao final, a grande lição de Jennifer é que a importância é uma via de mão dupla: "toda vez que você lembra alguém do quanto essa pessoa importa, você é lembrado do quanto você importa também".
Veja o keynote na íntegra no YouTube
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